Sorria com discrição e delicadeza. Seus olhos escondiam o que só ela podia saber, compreendia o gosto amargo que outrora ele havia deixado, mas não perderia a nova oportunidade.
Foram sete meses de um calado sofrimento à procura de uma estrela que não podia alcançar. Nos últimos meses já tinha tratado de enterrar cada pedaço das fotografias em preto e branco que ele deixara pelas esquinas naquela noite. O vento se encarregaria de levar as cinzas e o tempo de apagá-las.
Aquilo pesava sob os ombros dela, era como se fosse as asas de uma borboleta incumbida de voar com uma bigorna até o dia em que cansasse e caísse, o que não levaria muito tempo, pois - apesar de não portar asas - era como as borboletas: sutil e frágil a qualquer dor.
O garoto reapareceu de relance, num curto intervalo de tempo com falta de ar de talvez meia hora, percebida nos sussurros da respiração pesada. Reapareceu na pressão de dois lábios que havia tempos não se viam e no tocar de mãos que procuravam, um no outro, no que segurar para que não deixassem nenhum minuto escapar.
O amor dela era feito fênix: ressurgia das cinzas. Ressurgia também dos seus mais secretos sonhos que não podiam ser vistos através daqueles olhos mil vezes misteriosos, olhos que ardiam em chamas.
Dormiu eternamente para viver seu mundo surreal, onde aquele garoto agora era homem e podia levá-la onde pretendiam. Ele já não tinha o gosto amargo do passado cruel e, se ela agisse certo, ficariam juntos até o dia de acordar - o qual nunca chegaria. Foi aí que ela descobriu que querer e acreditar nos seus sonhos eram as únicas maneiras de torná-los reais. Então alcançou o céu inteiro, não só uma estrela.