quinta-feira, 24 de junho de 2010

Slow dancing in a burnin’ room (ou Sexo pelo buraco da parede)*

- quer tirar a camisa? - pediu ela.
- sinto vergonha - ele riu e tirou a camisa -, você pode tirar a sua para que eu não me sinta tão estranho parado aqui de pé?
- isso faria você se sentir menos estranho? - ela riu, mas tirou a camisa, mantendo-se afastada do buraco para que ele pudesse chegar junto à parede e olhar para ela.


- quer tirar também as meias - pediu ela - e a calça?
- você também tira as suas?
- eu também sinto vergonha - disse ela. era verdade, apesar deles já terem visto o corpo nu um do outro centenas, e provavelmente milhares, de vezes. mas eles nunca haviam se visto de tão longe. nunca haviam conhecido a intimidade mais profunda, aquela proximidade que se atinge apenas à distância.



ela foi até o buraco e ficou olhando para ele por vários minutos. depois se afastou do buraco. ele foi até lá e olhou para ela por vários minutos em silêncio. no silêncio eles atingiam outra intimidade, aquela das palavras não ditas.



- agora quer tirar a sua roupa de baixo? - pediu ela.
- você tira a sua?
- se você tirar a sua.
- você tira?
- sim.
- promete?



eles tiraram a roupa de baixo e se revezaram olhando pelo buraco, experimentando a súbita e profunda alegria de descobrir o corpo um do outro, e a dor de não serem capazes de descobrir um ao outro ao mesmo tempo.



- toque em você mesmo como se suas mãos fossem as minhas - disse ela.
- mas...
- por favor.



ele fez o que ela pedia, embora constrangido, embora estivesse à distância de um corpo do buraco. e embora ele pudesse ver apenas o olhos dela, ela fez o mesmo que ele, usando as próprias mãos para lembrar-se das mãos dele. inclinou-se para trás, e com o dedo indicador direito apalpou o buraco, e com o esquerdo ficou fazendo círculos sobre o seu maior segredo, que também era um buraco, também um espaço negativo.



- você vem até mim? - perguntou ela.
- vou.
- sim?
- vou.



eles se amaram através do buraco. três amantes comprimidos um contra o outro, mas nunca se tocando inteiramente. ele beijava a parede, ela beijava a parede, mas a parede egoísta nunca retribuía os beijos. ele apertava as palmas contra a parede, e ela, que virava-se de costas para a parede para acomodar o amor, apertava a parte de trás das coxas contra a parede, mas a parede permanecia indiferente, nunca reconhecendo o que eles estavam tentando fazer com tanto empenho.

eles viviam com o buraco. a ausência que o definia tornou-se uma presença que os definia. a vida era um pequeno espaço negativo extraído da eterna solidez, e pela primeira vez parecia preciosa - não como todas as palavras que haviam deixado de ter significado. como o último suspiro de uma vítima se afogando, porém.

ela recortou da parede o buraco que a separara dele naqueles últimos meses, e pôs num colar. faria lembrar-se do homem que perdera nos seus dezenove anos, e do buraco que, conforme ela estava descobrindo, não é uma exceção na vida, e sim a regra.

o buraco não é o vazio; o vazio existe em torno dele.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

EU GOSTO DO QUE NÃO EXISTE

"Dê-me amor, o amor não existe, e eu já experimentei todas as coisas que existem."


mas lhe era inevitável. ela se apaixonara por um garoto inexistente ou, talvez, apenas ausente e distante do mundo em que habitava.

nas noites frias, em sua cama, sentia falta do corpo dele se sobrepondo ao seu - embora de fato isso jamais tivesse acontecido -, da pressão que fazia sobre seu peito e sua cintura, e da mão esquerda invadindo-lhe a virilha (afinal, ele era canhoto).

lembrava-se detalhadamente do jeito gostoso como ele a tateava e despia, e de que nunca conversavam em alto volume, pois ele era uma pessoa silenciosa (e fechada) - eu diria até que calada, já que sua melhor forma de comunicação se dava pelos toques e respiração pesada que respondiam aos gemidos dela.

nada nele era ameno, tudo nele era voraz. e despertava, nela, a vontade de arrancar os melhores pedaços dele com os dentes, mastigando-os (e saboreando-os) devagar. na noites quentes, refrescavam-se com saliva e néctar.

ela sentiria saudades, ainda que aquilo tudo para ele nunca tivesse existido ou significado algo. sentiria saudades mesmo sabendo que ele era uma peça de ficção, mas acreditando nele mesmo assim.


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o que fazer quando a espera te desespera?