- quer tirar a camisa? - pediu ela.
- sinto vergonha - ele riu e tirou a camisa -, você pode tirar a sua para que eu não me sinta tão estranho parado aqui de pé?
- isso faria você se sentir menos estranho? - ela riu, mas tirou a camisa, mantendo-se afastada do buraco para que ele pudesse chegar junto à parede e olhar para ela.
- quer tirar também as meias - pediu ela - e a calça?
- você também tira as suas?
- eu também sinto vergonha - disse ela. era verdade, apesar deles já terem visto o corpo nu um do outro centenas, e provavelmente milhares, de vezes. mas eles nunca haviam se visto de tão longe. nunca haviam conhecido a intimidade mais profunda, aquela proximidade que se atinge apenas à distância.
ela foi até o buraco e ficou olhando para ele por vários minutos. depois se afastou do buraco. ele foi até lá e olhou para ela por vários minutos em silêncio. no silêncio eles atingiam outra intimidade, aquela das palavras não ditas.
- agora quer tirar a sua roupa de baixo? - pediu ela.
- você tira a sua?
- se você tirar a sua.
- você tira?
- sim.
- promete?
eles tiraram a roupa de baixo e se revezaram olhando pelo buraco, experimentando a súbita e profunda alegria de descobrir o corpo um do outro, e a dor de não serem capazes de descobrir um ao outro ao mesmo tempo.
- toque em você mesmo como se suas mãos fossem as minhas - disse ela.
- mas...
- por favor.
ele fez o que ela pedia, embora constrangido, embora estivesse à distância de um corpo do buraco. e embora ele pudesse ver apenas o olhos dela, ela fez o mesmo que ele, usando as próprias mãos para lembrar-se das mãos dele. inclinou-se para trás, e com o dedo indicador direito apalpou o buraco, e com o esquerdo ficou fazendo círculos sobre o seu maior segredo, que também era um buraco, também um espaço negativo.
- você vem até mim? - perguntou ela.
- vou.
- sim?
- vou.
eles se amaram através do buraco. três amantes comprimidos um contra o outro, mas nunca se tocando inteiramente. ele beijava a parede, ela beijava a parede, mas a parede egoísta nunca retribuía os beijos. ele apertava as palmas contra a parede, e ela, que virava-se de costas para a parede para acomodar o amor, apertava a parte de trás das coxas contra a parede, mas a parede permanecia indiferente, nunca reconhecendo o que eles estavam tentando fazer com tanto empenho.
eles viviam com o buraco. a ausência que o definia tornou-se uma presença que os definia. a vida era um pequeno espaço negativo extraído da eterna solidez, e pela primeira vez parecia preciosa - não como todas as palavras que haviam deixado de ter significado. como o último suspiro de uma vítima se afogando, porém.
ela recortou da parede o buraco que a separara dele naqueles últimos meses, e pôs num colar. faria lembrar-se do homem que perdera nos seus dezenove anos, e do buraco que, conforme ela estava descobrindo, não é uma exceção na vida, e sim a regra.
o buraco não é o vazio; o vazio existe em torno dele.
- sinto vergonha - ele riu e tirou a camisa -, você pode tirar a sua para que eu não me sinta tão estranho parado aqui de pé?
- isso faria você se sentir menos estranho? - ela riu, mas tirou a camisa, mantendo-se afastada do buraco para que ele pudesse chegar junto à parede e olhar para ela.
- quer tirar também as meias - pediu ela - e a calça?
- você também tira as suas?
- eu também sinto vergonha - disse ela. era verdade, apesar deles já terem visto o corpo nu um do outro centenas, e provavelmente milhares, de vezes. mas eles nunca haviam se visto de tão longe. nunca haviam conhecido a intimidade mais profunda, aquela proximidade que se atinge apenas à distância.
ela foi até o buraco e ficou olhando para ele por vários minutos. depois se afastou do buraco. ele foi até lá e olhou para ela por vários minutos em silêncio. no silêncio eles atingiam outra intimidade, aquela das palavras não ditas.
- agora quer tirar a sua roupa de baixo? - pediu ela.
- você tira a sua?
- se você tirar a sua.
- você tira?
- sim.
- promete?
eles tiraram a roupa de baixo e se revezaram olhando pelo buraco, experimentando a súbita e profunda alegria de descobrir o corpo um do outro, e a dor de não serem capazes de descobrir um ao outro ao mesmo tempo.
- toque em você mesmo como se suas mãos fossem as minhas - disse ela.
- mas...
- por favor.
ele fez o que ela pedia, embora constrangido, embora estivesse à distância de um corpo do buraco. e embora ele pudesse ver apenas o olhos dela, ela fez o mesmo que ele, usando as próprias mãos para lembrar-se das mãos dele. inclinou-se para trás, e com o dedo indicador direito apalpou o buraco, e com o esquerdo ficou fazendo círculos sobre o seu maior segredo, que também era um buraco, também um espaço negativo.
- você vem até mim? - perguntou ela.
- vou.
- sim?
- vou.
eles se amaram através do buraco. três amantes comprimidos um contra o outro, mas nunca se tocando inteiramente. ele beijava a parede, ela beijava a parede, mas a parede egoísta nunca retribuía os beijos. ele apertava as palmas contra a parede, e ela, que virava-se de costas para a parede para acomodar o amor, apertava a parte de trás das coxas contra a parede, mas a parede permanecia indiferente, nunca reconhecendo o que eles estavam tentando fazer com tanto empenho.
eles viviam com o buraco. a ausência que o definia tornou-se uma presença que os definia. a vida era um pequeno espaço negativo extraído da eterna solidez, e pela primeira vez parecia preciosa - não como todas as palavras que haviam deixado de ter significado. como o último suspiro de uma vítima se afogando, porém.
ela recortou da parede o buraco que a separara dele naqueles últimos meses, e pôs num colar. faria lembrar-se do homem que perdera nos seus dezenove anos, e do buraco que, conforme ela estava descobrindo, não é uma exceção na vida, e sim a regra.
o buraco não é o vazio; o vazio existe em torno dele.