terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Sorria com discrição e delicadeza. Seus olhos escondiam o que só ela podia saber, compreendia o gosto amargo que outrora ele havia deixado, mas não perderia a nova oportunidade.

Foram sete meses de um calado sofrimento à procura de uma estrela que não podia alcançar. Nos últimos meses já tinha tratado de enterrar cada pedaço das fotografias em preto e branco que ele deixara pelas esquinas naquela noite. O vento se encarregaria de levar as cinzas e o tempo de apagá-las.

Aquilo pesava sob os ombros dela, era como se fosse as asas de uma borboleta incumbida de voar com uma bigorna até o dia em que cansasse e caísse, o que não levaria muito tempo, pois - apesar de não portar asas - era como as borboletas: sutil e frágil a qualquer dor.

O garoto reapareceu de relance, num curto intervalo de tempo com falta de ar de talvez meia hora, percebida nos sussurros da respiração pesada. Reapareceu na pressão de dois lábios que havia tempos não se viam e no tocar de mãos que procuravam, um no outro, no que segurar para que não deixassem nenhum minuto escapar.

O amor dela era feito fênix: ressurgia das cinzas. Ressurgia também dos seus mais secretos sonhos que não podiam ser vistos através daqueles olhos mil vezes misteriosos, olhos que ardiam em chamas.

Dormiu eternamente para viver seu mundo surreal, onde aquele garoto agora era homem e podia levá-la onde pretendiam. Ele já não tinha o gosto amargo do passado cruel e, se ela agisse certo, ficariam juntos até o dia de acordar - o qual nunca chegaria. Foi aí que ela descobriu que querer e acreditar nos seus sonhos eram as únicas maneiras de torná-los reais. Então alcançou o céu inteiro, não só uma estrela.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

De repente o carro freou, eu desacelerava os passos para me esconder atrás de um poste.

Cabelo bagunçado, cansaço físico & mental, olheiras gigantes, noites mal dormidas, rosto inchado, aos poucos morrendo.

Você dentro do maldito do seu carro, parado ali me esperando passar pra ver se eu continuava a mesma, pra me arrancar palavras não pensadas enquanto ria... ria... ria... Pouco se fudendo.

Passei mal, queria corrrer pro meu mundo, esquecer a porra do seu, vomitar lembranças, sentimentos, loucuras e qualquer coisa mínima que me prendesse a você, seu merda!
Uma vontade imensa de me desapegar de alguns hábitos do passado: seu beijo, abraço, mentiras, viagens, meu quarto.

Raiva, superacidez no estômago: náuseas de você.

sábado, 22 de novembro de 2008

lorena o mundo constantemente acaba.*

Lafaiete JúnioR diz:
e constantemente começa também.*


E o meu dia ganha um sorriso, acanhado, porém, um sorriso...

*Do livro Tudo Se Ilumina.

domingo, 2 de novembro de 2008

you don't wanna hurt her.

Acho que não eram nada mais que dois estranhos deitados juntos naquela cama, abraçados, porém, distantes. Estavam ausentes da paisagem que se tinha no quarto naquela manhã, talvez perdidos embaixo do lençol branco e frio, mas, em momento nenhum, menos vazios que ele.

Na cozinha não havia mamão, suco de laranja e geléia de morango esperando por eles. Não era um café da manhã perfeito, nem eles eram perfeitos. Eram exatamente os pequenos defeitos dela que o encantavam, era exatamente por seus defeitos que ela um dia resolveu se envolver com ele, achando que a aperfeiçoaria.

Decerto eram bastante diferentes. Ele vivia ocupado com o trabalho, ela querendo sumir do colégio e, às vezes, da própria vida. Ele sendo o tempo todo racional, ela sempre idealista. Sabia bem o que é ser homem, mas ela era sempre infantil. Tinha quase 20 anos além dela, mas isso não os diferenciava, apenas os aproximava.

Era um caso escondido, as pessoas não entenderiam, embora ela não fizesse questão de que lhe entendessem. O único receio era a separação, que com o passar do tempo foi parecendo tão óbvia como se desde o começo houvesse existido em algum lugar dentro deles.

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Na casa dele a mesa estava posta com taças, talheres, pratos e um castiçal. A entonação do convite na noite anterior fez com que ela imaginasse um encontro perfeito: um jantar, só os dois. Mas o ato não foi como deveria ser, era apenas mais um encontro com conversa intimista e sobremesa sem entrada, preparada por ele. Talvez a mesa posta fosse para um outro encontro que ele iria ter, o qual não a incluiria.

Aquilo tudo era um jogo, de modo que um era a entrada do outro. Quanto mais vinho, mais sentimentos sigilosos eram expostos; quanto mais vinho, mais confusão, mais palavras sem sentido sendo ditas; quanto mais vinho, mais aproximação sem razão se davam e, de porre, sem que compreendessem o terrível significado daquelas declarações ébrias, se entregaram.

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Parênteses: Ele não era o cara que ela esperava, no entanto, ela era a paixão enérgica que ele queria. Ele não era o cara da feira que comprava rosas para a mulher em dias nada especiais. Embora abrisse a porta do carro, não servia o jantar e teria sido mais sincero comemorar a não-celebração com cerveja. Vinho era muito romântico para uma noite em que seu único intuito era que não passasse de outra noite. Ele era um cara mais velho, igual a todos os outros caras pelo fato de não ser o pai dela, um rei protegendo a princesa.

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A entrega foi confidente, assim como todas as outras entregas que já haviam tido. A paixão parecia ainda mais evidenciada na intimidade: olhos nos olhos, boca na boca, línguas escrevendo uma na outra o que a introspecção não deixaria, a mão dele prendendo a cintura dela de um jeito possessivamente passional e a mão dela decodificando seu coração nas costas dele de um jeito feroz que deixava vergões, talvez porque naquele momento pensasse em outro, mas ele sempre dizia que feridas de amor não doem.

Era nesse - exclusivamente nesse - momento em que ambos se satisfaziam, porque nos outros sempre faltava alguma coisa: a paciência de um, a palavra de outro e etc. E, quando a magia do bem-estar acabava, ele falava coisas bonitas que ela fingia não ouvir, cansado, dormia. Ela se acomodava debaixo dos braços dele com a cabeça no peito e o abraçava, era insegura, passava a noite em claro o observando sonhar e não o contrário. Eles se esqueciam: ele dormia depois do prazer e ela tinha a cabeça em outro lugar.

Acho que não eram nada mais que dois estranhos deitados juntos naquela cama, abraçados, porém, distantes. Estavam perdidos embaixo do lençol branco e frio que cobria a cútis. Ele pressentia a insinceridade dela nos seus sonhos, ela deseja estar embaixo de um lençol vermelho e intenso com um outro alguém. Por transmissão de pensamento -afinal, eles eram confidentes- ele a questionava "Quando foi que eu te perdi?", mas ela nunca lhe responderia.
Todo amor é menos cruel quando se tem os olhos vendados.

sábado, 1 de novembro de 2008

Hoje eu reencontrei uma pessoa que há tempos eu não via, um amigo que sumiu sem deixar telefone, e-mail ou qualquer referência. E é engraçado o jeito como eu não sei lidar com isso: reencontro.

Primeiro me bateu uma ansiedade louca de correr antes que ele pegasse o ônibus para um lugar qualquer no meio dessa infinidade de lugares e mais uma vez se perdesse de mim. Queria chegar na fila onde ele estava, dar um abraço, um sorriso, falar da minha vida. Mas eu não o fiz. Fiquei boba, parada entre um monte de gente que ia e vinha, sem saber o que falar, arquitetando palavras e respostas loucas para perguntas tão normais, mas eu sôo sempre tão sem sentido.

Estava decidida em esperar o sinal fechar, tomar a rua em passos largos e sumir dali. Não queria vê-lo, contar minha vida e perguntar sobre a dele. Porém, tomar a rua naquele momento seria andar na contra-mão. Na contra mão do acaso - ou destino?-, na contra-mão da vida, na contra mão de uma cidade grande que naquele momento era pequena e havia nos trazido até ali. Eu tinha medo. Medo dele não me reconhecer depois desses anos e, pior, medo dele me reconhecer e perceber o quanto eu mudei. Mas eu fui.

Fui chegando devagarinho, esperando ele me notar surpreso ou indiferente. E, quando percebi que ele já tinha me visto, não aguentei e arrebentei um sorriso. Fui logo pro abraço, para as mesmas perguntas de sempre e pra reconfortante resposta "Eu estou bem."

Ele me reconheceu do mesmo jeito que há quatro anos, pelo mesmo sorriso de sempre que, embora ele não saiba, eu fiz questão de vestir justamente pra fingir que nada mudou, que eu continuo a mesma bobona de sempre. Mal sabe ele que eu mudei e que eu mudei por causa dele e de alguns outros que, coincidentemente, têm o mesmo nome - o qual não é nada comum.

É incrível, foram três e todos eles me ensinaram crescer, me ensinaram que amor tem várias formas e outras tantas coisas lindas. E de todos eles eu me desencontrei, como se amar fosse deixar perder. E com todos eles eu aprendi que amar é deixar livre, porque um dia volta se for amor de verdade.

Não cabe a mim ficar comentando da vida dele, mas a verdade é que nas minhas brincadeiras toscas de criança eu aprendi muito com ele. Dois deles voltaram. Mas o mais importante, o mais sábio e incrível em todos os sentidos se perdeu pra sempre, fugiu de mim. E eu não sei quando fui deixada...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

à minha.

E você finge ser. É cabal, e eles são!
Toque são imperdoáveis, pra eles você é uma boneca de porcelana.
Mas você me diz ser puro pano, rasgado em todas as partes e cheio de remendas.
Você esconde marcas, não sabe quem realmente é ou espera ser...

Os dias passam rápido, nós estamos cada vez mais longe.
O telefonema de madrugada já não lhe importa.
Ela não precisa mais desse tipo de coisa, ela crê que o mundo é dela.
Ela gosta de desenho animado, ri com Garfield. Ela fica feliz. Eu fico feliz por ela.

Sempre calma. Jeito simpático, piegas, sorriso tímido.
Prometia-me dias coloridos.
Músicas que faziam chorar já não combinavam com ela, pois queria as alegres.
E junto a mim, escolhia as eletrônicas, que davam vontade de tirar a roupa.

Sorrisos se abriam, seus olhos cintilavam!
Assim que as horas de histeria passavam, permanecíamos no mesmo lugar, mas em mundos diferentes.
Precisávamos dessa distância. Eu a prendia. Ela me acalmava.

Mais algumas horas... Eu no mundo da lua, ela tentando ser mais racional.
Nem bom dia, nem confissões. NADA!
As coisas voltavam ao normal. A indiferença continuou.

Não havia músicas coloridas, nem sorrisos que se abriam e nem olhos que cintilavam.
Não havia a mesma amizade.
Talvez uma conversa... mas tudo sempre dava errado!
[Nunca pude crer]